Nada de mais. Era capaz de passar horas assim. Isso facilitava nosso trabalho. E prolatou. A gente volta a ser o que era. Antes de entrar para o BOPE, ele era policial civil e nunca abandonou alguns amigos dos velhos tempos. No caso dele, as coisas pareciam ser mais complicadas do que o habitual. Aproximou-se como se fossem todos amigos. Estava amanhecendo e eu saio muito cedo, mas a rua estava deserta. De repente, ouvi um tiro seco e o ronco da moto.
O tiro foi de profissional, bem no meio da testa. Zelamos para que os filhos de nosso companheiro herdassem esse legado inspirador.
Todos tinham sido feridos por aquele tiro covarde. Covarde e humilhante. Pois, muito bem, tinha chegado o momento feroz. Formamos um grupo de oficiais para conversar com o comandante em nome do coletivo, depois do sepultamento. Sentamos no alojamento de oficiais. Escolhemos uma sala de aula. Ele conhecia bem o lugar. Vestimos os capuzes e rezamos pela alma de nosso companheiro morto. A caveira tem um nome a zelar. Descemos a favela em paz, devolvemos as armas e nunca fomos convocados pela corregedoria da PM para tratar do assunto.
Eles sempre sabem muito bem quando enfrentam a caveira. Registramos nos nossos caderninhos o nome do rapaz que escapou. Os traficantes o denunciaram. No final da tarde do dia seguinte, coronel Camargo chamou os quatro oficiais mais ligados ao Juarez para uma conversa em seu gabinete. Engano seu. Culpa eu sentiria se tivesse sido covarde, isso sim. Quem estava culpado era o coronel. Quase respondo "obrigado". Nada estava fazendo sentido.
Eu disse que sim. Parecia que ele estava lendo meus pensamentos. Quanto mais eu me atrapalhava, mais o seu radar seguia minha fuga para o fundo da Terra. Quero saber o que pensam seus companheiros.
Me deu vontade de sacudir aqueles dois filhos da puta e gritar: "Porra, caralho! Que bom. Parecia pensar, enquanto falava.
Falar para ganhar tempo, enquanto calculava. Trabalho no centro Luz do Mundo. Eu estava aliviado. Quem estava confessando era ele. Minha mulher estranhou, porque eu durmo feito uma pedra. Fui pra sala. Acendi o abajur. Ela acorda cedo, mais cedo do que eu pra cuidar do neto. Era espiritual, entendem? Quando a gente recebe Sabem o que eu li? O comandante disse umas palavras. Podem ir. Nunca falamos do assunto. Procurei esquecer. Seria tratado como X Sala e cozinha escuras e apertadas, separadas por uma cortina engordurada, azul-marinho.
A porta rangeu. A voz feminina vinha do segundo andar. Estou falando a verdade. Deixem eles em paz. E aumentou o tom: — Cala essa boca, sua puta. Meus filhos, pelo amor de Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo. Nem os apelos.
Reagiu na mesma linguagem, vociferando como o Deus do Primeiro Testamento: — Cala essa boca, sua filha da puta. Acontece que, por um desses ardis da sorte ou do azar, a bala ricocheteou na coluna e acertou a nuca do rapaz que chorava. Por isso, teve que continuar atirando. Um erro leva a outro. Que tiveram pesadelos. Tomaram tarja preta para dormir.
Mas a gente acaba se acostumando. Sou mesmo. Portanto, nenhum problema em trocar algumas palavras. Eu tinha visto um rapaz empurrado numa cadeira de rodas, de algemas, conduzido por um policial militar.
Tem certeza? Parece outra pessoa. Mas agora fiquei preocupado. Desliga, porra. O cabo Alves teve de concordar. Nem que a gente estivesse blindado contra qualquer merda. Ele era o ponta. Se fosse policial, o requinte de crueldade era maior.
A subida tinha sido bem planejada. Mas nosso alvo era a Murici. Filhos da puta. Os traficantes abriram fogo, cobrindo o bandido designado para resgatar o comparsa ferido. Jogaram uma granada. Sua agilidade o salvou. Os vagabundos se deram conta de que estavam lidando com o BOPE e fugiram. O moribundo era nosso butim. Gritei e apontei a arma para cima. A mulher fechou a janela, apagou a luz.
O jeito era descer com o porco sangrando. Lamento ter de escrever desse jeito, mais uma vez. Foi assim. Engole essa merda, seu puto. Porra, mas aconteceu. O cara sobre viveu. Nosso sniper era o Duque, sargento Alceu Duque dos Santos.
Levamos visores noturnos e nos preparamos para passar a noite por ali mesmo. Pode relaxar. Tudo bem. Eu tinha mais com que me preocupar. Acho que estou com um bandido no alvo. Um fuzil. Ajeita direitinho. Deixa eu dar um teco. Esquece essa bobagem. Se for uma bengala? Se for qualquer outra merda, cacete? Porra, muda o disco. Estica as pernas. Vem ajudar a gente a finalizar o plano. Parecia um drogado. Quem foi que te deu a ordem, porra? Chamei alguns soldados para nos acompanharem. Descemos a favela de Nazareth, numa carreira desabalada.
Atravessamos algumas ruas. Subimos com cautela, profissionalmente, mas em alta velocidade. Um bolo de gente cercava um sujeito estirado. Todo mundo correu, quando nos viu. Que merda. Sacanagem com o cara.
Acabamos nos lembrando de um caso revelador. Uma sereia? Vai ser coisa de sujeito homem. Vai ser uma caveira. Pra que a caveira? Fica pra sempre. Assim como ser membro do BOPE. O orgulho fica. Expliquei: — Viu o jornal, hoje? E canta bem paca. Deve ter sido um acidente, uma fatalidade.
No fundo, pode-se dizer que sim, foi intencional. Cobra todo dia, toda hora. Quer resultado. Seria uma irresponsabilidade. Uma quantidade grande de gente circula na comunidade.
Para que serve o BOPE? Posso explicar tudo, tecnicamente. Quero o vagabundo, o Matias Matagal; quero esse monstro vivo ou morto. Vamos deixar as coisas em pratos limpos, Rubilar. Acabei de falar com ele. Fale, novamente. Foda-se a comunidade. Foda-se o BOPE.
As vozes se confundem. Muita gente passava correndo pra tudo que era lado. Se recusava a acreditar. Ele desmaiou antes de sentir dor. Foi um inferno. Se Deus quiser, vai recuperar os movimentos e vai voltar a andar. Mas os outros dois meninos nem chegaram ao hospital.
Morreram junto ao alambrado, perto da Casa da Paz. Mais que isso: um diplomata. Aprendera a dizer o que o interlocutor quisesse ouvir. O magricela detido no trailer era prova disso. Peixe grande. Uns quarenta minutos depois, o trailer recebeu uma visita ilustre: chegou o deputado. Uma celebridade. Tinha pressa. Precisava falar com o coronel, imediatamente. Leme entrou esbaforido no trailer: — Deputado, que honra receber sua visita. O deputado subiu o tom. Reiterou cada ponto do argumento: tratava-se de um homem de bem.
Ele conhecia o passado do magricela, seus parentes, sua vida. Empenhava nesse testemunho a sua palavra. O que estava em jogo, afinal, era sua palavra, sua credibilidade. No entanto, o fato, o senhor compreende, sendo assim grave, torna o caso um pouco delicado.
Meus subordinados cumpriram o dever e detiveram o seu amigo. Roger, educadamente, pediu ao coronel que passasse a ordem, diretamente. Mas transmitiu a mensagem, com jeito. Tanto que Leme viu-se obrigado a comunicar ao sargento e ao cabo, diretamente. Por isso, Leme sentiu-se leve quando voltou ao deputado para dar-lhe as boas-novas. Era o momento de colher os frutos. Conquistaria para sempre a simpatia do deputado. O deputado precisava levar consigo a arma. O representante do povo levantou a voz.
Como encarar Roger, o sargento e o cabo? O que fazer para prevenir o contra- ataque do deputado? Vai devagar. Segura o seu pessoal.
Mas, o que fazer? Naquele caso, do meu lado. Tudo tem sua hora e seu lugar. Ali, quanto menos eu pensasse nessas coisas, melhor. Ele se destacava e desaparecia, engolido pela turba com bandeiras e faixas. Quem sabe, ele quebra meu galho e me ajuda a resolver essa encrenca? Ele adora uma sacanagem. Ele vai se sentir insultado.
Que barato! Depois a gente toma uma gelada e mata a saudade. Porra, que saudade. Eu ando mesmo meio desaparecido. Cercado de mulher bonita, pra variar, nesse cortejo de patricinhas.
Ficaria tudo resolvido, sem problema nenhum. Promete que vai me ligar. Nelinho encerrou as tratativas e voltou correndo: — Tenente, tenente. Parei e girei o corpo. A passeata prosseguia sua marcha. Piscou o olho e liberou uma das pistas. Quer dizer, para todos os efeitos, quem liberou fui eu. O senhor agiu com grande destreza e sensibilidade.
Juro que ele falou destreza. Aquela arenga do padre eu sei muito bem aonde conduz. De todo modo, me surpreendi com o que ele disse, depois de toda a xaropada. Pode me procurar. Fazer Direito era meu sonho, Sempre foi. Era a mais pura verdade. Um sonho adiado por falta de grana, os problemas em casa. Passei a manga do uniforme no rosto. E deixa a gente emocionado pra caralho. Digo isso porque foi assim que vivi o ingresso na PUC; foi uma batalha campal.
De um lado, a vontade de realizar o sonho da universidade, o curso de Direito; de outro, a vontade de adiar a universidade e o curso de Direito. Um corre-corre alucinado. Foi o que aconteceu com o sargento Almeida. Todo o dinheiro que ganhava ia direto para as despesas da mulher. Comprou um carro decente. Modesto mas decente. Um apartamento no nome dela.
Bom apartamento. No Flamengo. A mulher estava na linha, queria falar com ele. Boas compras. O maior azar. Entrega a chave pra dona Samantha, no Pode estacionar na garagem. Onze horas, meio-dia, e nada do Guedes voltar. A gente pede um favor e eles se aproveitam. Esse garoto me deixa sozinho, no meio do expediente, sabendo a quantidade de coisa que eu tenho de aprontar ainda hoje. Deve estar na praia, passeando. A noite, em casa, antes do jantar, Almeida olhava a rua pela janela da sala.
Samantha fazia uma boquinha com o marido antes de sair para o batente e exigia o ar refrigerado. Somos muito diferentes. Eu tolero bem o frio, tolero perfeitamente.
Almeida estava angustiado. Te respeitou? Almeida dissimulou o mal-estar. Ele deu um beijo na testa de Samantha. Que policial sou eu? Se estamos proibidos de subir morro, de invadir favela, de prender traficante Sempre te achei meio esquerdista mesmo. Que caretice. Me chamou de careta. Que isso, cara.
Fala feito homem. Puta que o pariu. Muda o disco. Explodir banca de revista? Descobrimos que ele tem parentes em Santa Teresa. Era preciso cuidado. Eu, inclusive. O mais cerebral era o Sabino. O mais experiente, o Valter. Eu carregava o piano. Ela estava sempre conosco, indiretamente, espiritualmente. Bem, talvez eu esteja exagerando um pouco. E quantas vezes ela nos salvara? Um sol abrasador focalizava o litoral efervescente. De todo modo, nunca abrimos as cortinas.
Sabino chegou atrasado. Isso jamais acontecia. Pensei logo no pior: nosso ponto de encontro teria vazado por algum erro meu.
Ele costumava fazer isso quando estava nervoso. Vamos ter de abortar. Acha uma maluquice. Problema dela e dos homens dela. Sei de tudo. Todo mundo. Montou uma verdadeira coreografia devassa. As garotas foram postas de frente para eles, numa linha paralela. Olhos nos olhos. Algumas foram sorteadas para a tarefa ingrata. As patricinhas brancas foram poupadas. Ou os dois. E tem mais. Posta no mundo, cada um que lide com ela como quiser.
O ambiente era de revolta generalizada contra o Santiago. Nada mais. O Santiago logo ficou sabendo. Eles disseram que sim. O oficial encarregado os receberia em alguns minutos. Um deles era mais alto e caminhava mais devagar. Santiago foi chamado ao gabinete do coronel. E seus documentos. Quero ver seus documentos. Levantou os olhos do papel, olhou o jovem tenente de alto a baixo, e continuou anotando. Sou homem do Eliseu. Meu chefe manda no teu. Algemou o sujeito, recolheu as provas, enfiou o malandro na viatura e o despejou na delegacia.
De certa forma, indiretamente, pagam seus impostos. Fechar portas? Quem se beneficiaria com isso? Ali, era eu ou ele. Ele era o tipo do policial vocacionado. Tanto que o sonho dele era o BOPE. O coronel convocou-o novamente. O prefeito me chamou. Levei a maior descompostura por sua causa.
Minha fatia, eu divido. Problema seu. Um dia, no futuro, vamos voltar a conversar. Pode ir. Santiago me contou que sentiu um travo na garganta. Por um lado, ele estava preparado para aquele desfecho. Imaginava mais ou menos aquele resultado. Copacabana derreteu o rigor puritano. A praia, as mulheres da noite, os turistas, as oportunidades. Melhor dizer claramente: optou pela bandalha, o escracho, a sacanagem. Quanto mais desordem houver, maior o lucro dos convencionais.
Virou um expert, um profissional, um mestre na arte de extorquir, chantagear, blefar e manipular. Ele fez a festa na Zona Sul. Alguns dias depois de ter assassinado o sujeito que o denunciara, Santiago foi convocado ao gabinete do comandante. Ele permaneceu trancado no gabinete mais de uma hora. Nunca mais se falou no assunto.
Ouvi diretamente de alguns dos principais protagonistas. Tudo circula. As palavras jorram, acontecem. Nada demais, portanto, que tudo se saiba. Tudo se confesse. Quer dizer, maduro, vivido, velho na carreira. Como um bom cascudo, dava conselhos. A hierarquia tem dessas coisas. O outro era superior a ele, era major; mas ele era mais velho. Logo percebeu que Santiago era o cara. Quer um cigarro? Quer beber alguma coisa? Um homem comum.
Cada coisa a seu tempo e em seu lugar. Pode ser sincero. Pode dizer. Seja franco. Melhor assim, se entendendo, compartilhando as coisas, cooperando, do que perseguindo, atrapalhando, pressionando, enchendo o saco, humilhando. Foi pensando assim que resolvi te chamar pra essa conversa franca, uma conversa amiga, de igual pra igual.
Sabe por que te chamei pra uma conversa de igual pra igual? Pode falar. Eu gostaria que o coronel me chamasse pra uma conversa assim. Foi o que eu deduzi. Se importa que eu fume? Um dia depois do outro. De que adianta prender esses pobres-diabos que a gente prende, hein? Me diz? Nem cabelo na cara eles tem. Uma tremenda putaria. Por acaso estou mentindo? Pode dizer, seja franco.
Eu estou sendo franco. Longe de mim julgar os outros. Cada um cuida de si. Sinceramente, eu acho que seria. Pode confiar em mim. Sou militar mas sou um democrata, entende? Pode ser franco. A tropa tem de entender isso.
Vamos fazer assim. Eu sou uma pessoa tolerante. Fica tudo acertado. Eu me adapto. Posso discutir um ou outro detalhe, mas nada que crie qualquer dificuldade para entrarmos num acordo, certo? Tem muita boate por aqui? Tudo se encaixa.
Acertando com uns, tudo fica acertado. Eu compreendo. Mas o senhor tem de se apresentar. O senhor tem que mostrar o quanto vale. Por exemplo, o cabo Mazinho e o sargento Mosca fazem a festa, ficam uma baba. Eles gostam de ficar de conversa mole com as meninas do morro, tomam umas geladas nos botecos, comem churrasquinho de gato.
Cada um tem de mostrar seu valor e vender sua mercadoria. O major calou-se. Fechou a cara. Parecia emburrado. Tanto que o Santiago chegou a pensar que talvez tivesse exagerado na dose. Mas o que estava feito, estava feito. Queria o Santiago no local, imediatamente. Vou chegar antes da imprensa. Um profissional. As portas e janelas estavam escancaradas, todas elas, e as luzes internas acesas. As fotos, cadernos, livros e revistas iam para um saco preto, antes de serem queimados.
Mandava seus comandados punirem os gritos dos moradores com porrada nas costas e nas pernas. O senhor exagerou. Pode dar a maior merda, major. Mais discretamente. Sem tanto alarido. Nivaldo olhou pra ele com uma cara, cuja mensagem era: "Vai ser puxa-saco assim na puta que o pariu. Encarava o chefe que lhe fazia caretas enquanto caminhava, ouvindo o interlocutor.
Eu vi tudinho no RJ-TV. Foi o maior sucesso. Mas, tudo bem. Cada um fez a sua parte. Tudo certo. Espera, cara, espera.
Qual era o acerto? Qual era o acerto, porra? Assim vai dar merda. Baixa a voz. Bota pra foder. Eles que se fodam. Tem de falar grosso mesmo. Olha, cara.
Rendeu RJ-TV, manchete nos jornais de hoje, tudo na maior limpeza. Conforme o combinado. Como, "deu problema"? E eu com isso? Eu sei que ia dar merda. Eu sei. Era sua vez de falar. Queria dar o assunto por encerrado, restabelecendo sua autoridade: — Olha, aqui, Santiago.
Eram armas perdidas. Vou pagar. Vou comprar. E, os vinte. Todos os vinte fuzis. Pode mandar trazer. Vou dizer aqui pro pessoal. Pode deixar que eu digo. Deve ser por isso que se chama viatura. Vamos deixar o coronel Flores esperando mais um pouco para acompanhar uma patrulha que alguns colegas faziam na Tijuca. Um carro subia. Era suspeito. Mas nem por isso o tenente Diogo refrescou. Mandou todo mundo saltar. Escolheu a mais graciosa. Tonta, foi erguida pelos rapazes, enquanto a fraquinha derramava-se toda, em prantos.
Duvido que me viessem com essas delicadezas. E assim vamos ladeira abaixo. Nunca tive tanta dificuldade para uma abordagem policial. Corriam muitos boatos. E assim caminha a humanidade. Infelizmente, nem todos os companheiros entendem o processo com clareza. Porra nenhuma.
Eu disse quase. Ele era menos baixinho do que eu imaginava. Menos barrigudo do que supunha. Menos grosseiro do que diziam.
Pena, a compostura derreteu logo. Deu uma risada de desenho animado e saiu, batendo a porta. Uma hora e meia depois, mais ou menos, o comandante voltou. Brincadeirinha de macho, entende? No caminho, passaria na firma de um amigo para, novamente, tomar emprestados oito visores noturnos.
Ou a gente se vira ou nada acontece — e os riscos aumentam. Pode tirar o cavalinho da chuva. Dificilmente daria errado.
Tudo parecia se encaixar perfeitamente. Eu andava pela casa sem parar. Minha mulher tampouco conseguia pregar o olho, preocupada comigo, captando no ar minha ansiedade. Deu a maior merda. Um sargento morreu.
Foi muito estranho. Porra, uma merda. Ele morreu na minha viatura. Um sargento? Qual era o nome dele? Vou te encontrar agora. Preciso esclarecer uma coisa. Merda total. O nome era o mesmo. Descemos de rapei, com visores. Sem sustos. Descemos para a plataforma de ataque. Tudo conferia. Os vagabundos estavam por ali mesmo, em torno da casa, que era o paiol das armas. Eliminamos todos ou quase todos. Foram nove. Os bandidos que sobraram desapareceram. A favela parecia um deserto.
Todo mundo em casa. De todo modo, indiquei a ele o caminho mais seguro para subir. Essas coisas. Teve um detalhe que me deixou cabreiro. Nos trouxemos todas. Paramos um pouco antes da entrada da favela. Pareciam calmos. Nem interessa. Apontaram o colega e com o ar mais resignado natural do mundo disseram que tinha morrido no tiroteio. A tropa do Flores respondeu com fogo cerrado e os bandidos recuaram. Nisso, enquanto o grupo do Flores subia, empurrando os vagabundos de volta para cima ou os dispersando, o policial foi atingido.
Estava morto. Cara, ele estava vivo. Sangrava muito, mas tinha pulso. Dei um grito, chamei o Dutra e puxamos o sujeito. Deixa eu te dizer uma coisa. Uma coisa muito estranha mesmo. Eles se assustaram. Porra, cara, que filhos da puta.
Nunca vi nada igual. O cretino do Flores, provavelmente, demorou a chamar. Tivemos de jogar o homem em nossa viatura e correr feito loucos. O colega morrendo na nossa frente, no nosso colo, vomitando sangue. Uma merda, entende? E faz todo sentido. Na verdade, nada se encaixa. O Flores me disse que ele tinha acabado de sair da viatura, quando foi alvejado. Porra, cara, nada faz sentido.
Estou te dizendo. Devia ter te contado. Pode ter certeza de que nunca vou me perdoar por isso. Quando surgiu a primeira oportunidade, me aproximei e lhe disse que precisava falar com ele, em particular. Me procura outro dia. Perdi um amigo. Confesso que fiquei sem palavras e senti minha perna tremer. Tropa de Elite Tihuana a todo o volume. H um corte, entram os crditos restantes e se informa que o filme vai recuar no tempo em seis meses antes desse acontecimento.
Ao mesmo tempo em que o espectador conduzido ao interior do quartel, atravs dos intestinos do esquema corrupto da PM carioca, ao seguir o destino dos crdulos aspirantes, Neto e Matias.
A exposio didtica e mostra o sistema de extorso comandado pelos coronis e como ele contaminou toda a corporao. O choque diante dessa realidade e a forma como esses recrutas vo encar-la que constituem essa parte do filme como uma preparao para o encontro com Nascimento e a iniciao no ritual da seita do Bope.
Traa-se, ento, o desenvolvimento paralelo das trajetrias de Neto, Matias e Nascimento. O que vai ocorrer, de agora em diante, esclarecer toda a ao movimentada da abertura do filme. Neto Neto, que definido como um homem de ao, designado para chefiar a oficina do Batalho, onde s dois mecnicos trabalham, em condies precrias.
Ele ter que tomar decises fora da ordem, com a finalidade de obter fundos para de consertar as viaturas. Nesse mister orientado por um personagem intermedirio o Capito Fbio - que, ao ir em busca de dinheiro e peas para os automveis, constata que est sendo deslocado do sistema pelos coronis, que desenharam um novo mapa da extorso, tomando seus pontos.
Para contornar esse problema, Neto apresentar uma ideia que mudar o seu destino, o de Matias e o do Capito Nascimento: trata-se de se antecipar tomada de propina do jogo do bicho, realizada regularmente por um emissrio dos coronis. Assim, contando com Matias, ele obtm o montante para comprar as peas que faltam na oficina.
Esquecem, entretanto, que o sistema tem seus mecanismos de vigilncia, o que resultar em imediata punio: eles so transferidos para cozinha. Quanto ao Capito Fbio, mostra-se que preparada uma armadilha, que possivelmente resultar na sua morte, pois os coronis entenderam que a burla foi organizada por ele e motivada pelo seu deslocamento no.
Neto, sentindo-se culpado por colocar o Capito em perigo, e percebendo a trama, ser impelido a agir. Principalmente quando o prprio Capito diz a ele que foi convocado para subir com a Patamo para arrecadar dinheiro dos traficantes no Morro da Babilnia, sem a guarnio de sua confiana. Matias A trajetria de Matias mais complexa: negro, pobre e crente na justia, ele est em busca de uma outra insero na sociedade.
Para ele a PM apenas um estgio quer se tornar advogado. Seus problemas no sistema comeam quando designado para traar um mapa da mancha criminal" da regio de seu batalho, que obrigado a fraudar, computando as causas de morte violenta para causas naturais. Contrariado, ele aceita a ordem absurda. Na sua vida civil, ele cursa Direito numa grande universidade e acaba se envolvendo com um grupo de estudantes na preparao de um seminrio sobre o livro Vigiar e Punir, de Foucault.
Ele fica incomodado porque seus colegas fumam maconha enquanto discutem o texto, mas no os deixa perceber. Ao mesmo tempo ele percebe que os jovens so amigos do chefe do trfico local chamado Baiano , que dizem ser boa gente, pois tem conscincia social.
Edu, um dos estudantes mais radicais, mostrado como usurio de cocana e pequeno traficante de maconha, fazendo uma ponte entre a favela e a universidade. O administrador da ONG, Rodrigues tambm mostrado como drogado. Matias, na sua estada na favela, conhece um menino Romerito -, que descobre ter uma dificuldade visual e promete dar a ele um par de culos. Na universidade, os jovens "viciados" de seu grupo acham uma brecha no tal seminrio, para acusar a polcia de corrupta e violenta no trato com as classes menos favorecidas e mesmo com os da classe alta.
Matias discorda e consegue mobilizar todos os alunos contra seus argumentos, com a complacncia do professor. A partir da, Matias passa a ser alvo de chacotas pelo grupo. Maria no participa dessa zombaria e se envolve amorosamente com ele. Mais tarde ela conseguir agendar uma entrevista para o jovem tentar um estgio num escritrio de advocacia.
A vida de Matias na corporao vai mudar. Capito Nascimento - sua misso e seu estresse O Capito Nascimento v-se incumbido, contra sua vontade, de fazer uma limpeza no Morro do Turano, para garantir a segurana do Papa que se hospedaria nas imediaes do morro em sua 2 vista ao Rio. No meio da ao de seu grupo, um menino que cumpre funes de fogueteiro capturado e obrigado a indicar um jovem que estava com a carga de drogas.
Nascimento, nesse ponto, j demonstra sintomas de estresse ao repreender um viciado que estava no local, esfregando seu rosto no sangue de um traficante morto. Nesse momento, ele revela a tese principal do filme: os viciados que sustentam o esquema de violncia do trfico. O menino denuncia o vapor e os policiais mandam-no vazar.
Mais tarde, j no Bope, ele recebe a visita da me do garoto fogueteiro e sabe que ele foi morto pelos traficantes, como represlia sua traio. Ela pede ao capito que ajude a encontrar o corpo do menino. Nesse ponto, seu estresse chega ao limite e ele busca ajuda de uma psiquiatra da corporao, e consegue calmantes para tentar controlar sua crise. Numa noite de planto chamado para salvar uma guarnio que est sitiada no Morro da Babilnia. E tambm possvel entender o que estavam fazendo os aspirantes Neto e Matias na laje.
Torna-se claro que eles foram para o Morro da Babilna tentar salvar a vida do Capito Fbio, que estava em risco por ter seguido o plano de Neto para tomar dinheiro do sistema. Revela-se a razo de por que Neto havia disparado o primeiro tiro que vai deflagrar toda a ao: Ele errou quando sups que um traficante, ao fazer um movimento estranho, estaria sacando uma arma para atirar nos policiais da Patamo, entre os quais estava Fbio, que ele pretendia defender de seus prprios companheiros de farda.
As vidas de Neto, Matias e do Capito Nascimento se cruzam quando o Bope chega ao lugar, como a cavalaria americana, para salvar os soldados encurralados pelos nativos.
Nesse momento, a imprensa entra em cena, para complicar as coisas. Os jovens aspiras so fotografados ao lado da ambulncia, que recolhe um dos PMs mortos no local, e, pior, essa foto vai estampar a primeira pgina de um jornal popular e imediatamente chegar ao conhecimento de Baiano, que identifica, entre os policiais, Matias o jovem namorado de Maria, que costuma frequentar a ONG do morro.
O traficante, sem perder tempo, vai at as instalaes da instituio e ameaa os jovens que l atuam. Descoberta a identidade de Matias, prepara-se a armadilha para elimin-lo. Depois de terem sido salvos no Morro da Babilnia, Neto, Matias e o Capito Fbio se inscrevem para participar do treinamento e da seleo de componentes da tropa de elite. Ele mente para ela e diz que nesse perodo estaria viajando. Neto e Matias esto entre aqueles que conseguiram resistir.
Nascimento perde a oportunidade de escolher um soldado que achava mais qualificado que os dois para substitu-lo. Neto revela-se um fantico - manda tatuar no brao o smbolo do Bope adestrado pelo capito, acelera a limpeza do Turano. Entre elas, destaca-se a que mostra a volta de Matias para a faculdade, quando encontra Maria, que o recrimina porque colocou a vida dela e dos outros em perigo ao no revelar que era um policial.
Em seguida, ele aparece no Morro dos Prazeres, onde pressiona Edu, o estudante traficante e diz que os culos do menino Romerito ficaram prontos e quer entreg-los pessoalmente. Manda Edu avisar o menino para encontr-lo Matias num fliperama, s 12 horas do dia seguinte. Em sequncia, mostra-se Matias chegando a casa, onde est Neto, que lhe passa um recado de Maria informando que tinha agendado sua.
Neto diz que Matias precisa ir a essa entrevista e se oferece para encontrar o menino Romerito em seu lugar. Simultaneamente v-se Edu ser pressionado por Baiano a revelar o que est acontecendo, quando o jovem diz que iria suspender momentaneamente o transporte de drogas para a faculdade porque a situao estava ficando complicada.
Ameaa o rapaz, que revela o trato que fizera com Matias em relao aos culos do menino Romerito. Baiano, ento, prepara uma emboscada para Matias dentro do fliperama. S que Neto quem surgir em lugar de Matias e entregar os culos para o menino. A conversa entre o policial e o menino mostrada de forma terna e comovente. Nesse momento, o chegam os traficantes com suas armas. Neto sai do carro, atirando e alvejado.
Baiano descobre, pela tatuagem e ao conferir seus documentos, que o morto do Bope. Percebe, ento, que se danou. Despacha sua famlia para longe e envia seus sequazes at a ONG para buscar os estudantes, a fim de castig-los por terem trazido aquela desgraa para o morro.
O administrador da instituio e a estudante Renata so flagrados pelos traficantes em plena cena amorosa no interior da sede da ONG. Maria escapa por um triz. Os dois so levados para o alto da favela, onde a garota executada a tiros e o rapaz incinerado entre pneus, no popularmente conhecido micro-ondas. Ressalte-se que essas cenas so construdas de forma a mostrar os requintes de crueldade e so apresentadas como um ritual espetacular. Descoberta a morte de Neto, os agentes do Bope comeam a caada ao traficante Baiano, que j est entocado num lugar do morro, numa atitude suicida.
Nascimento, transtornado com a morte de seu oficial, tem um ataque de fria diante de sua mulher e, num ato simblico, vai ao banheiro, onde joga todas as plulas de calmante na pia. Parece indicar que o tempo de sua fragilidade terminava ali. Vai entrar em ao o velho esquema do faroeste. No enterro de Neto, em atitude abusiva, Nascimento coloca a bandeira do Bope em cima da bandeira nacional- um smbolo acima da lei - e encara Matias de forma desafiadora.
Maria, chocada, procura Matias e diz que sabe uma maneira de chegar a Baiano por. Na cena seguinte, v-se a moa sendo torturada por Nascimento. Ela entrega algum que pode lev-los ao traficante. Os policiais do Bope invadem um barraco de um peo do trfico, e o rapaz revela que foi o playboy Edu que informou a respeito da entrega dos culos, mas lamenta o fato de o dedo-duro no ter informado que o soldado era do Bope.
Nascimento chega a casa e l um bilhete de despedida de sua mulher. Na cena seguinte, aparece uma passeata para protestar contra a violncia e a morte da estudante. Matias entra no meio da passeata e encontra Edu, aquele que entregou o trato com Matias, que resultou na morte de Neto, e o espanca e grita: "Vocs so um bando de burgueses, safados!
O narrador exulta ao dizer que Matias estava se transformando num policial de verdade. Na sequncia, Matias invade a sala de xerox da universidade e espanca o funcionrio que o receptor do pequeno trfico de Edu. Enquanto isso, os policiais, sob comando de Nascimento continuam revistando barraco por barraco, torturando pessoas. Ironicamente, o narrador Nascimento diz que precisava pegar o Baiano e que sabia que o que estava fazendo no era certo, pois no podia ficar "esculachando" os moradores, mas que, naquele momento: "Nada neste mundo ia me fazer parar!
Os policiais conseguem, ento, chegar a um menino que tem um tnis muito caro em seu barraco um indcio de ligao com o trfico. Desconfiam, ameaam estupr-lo com uma vassoura e ele revela o lugar onde o grande vilo est. Na sequncia, v-se Baiano no seu esconderijo como um animal acuado. O bandido percebe instintivamente que algo est errado, pois o morro est muito quieto, ningum avisa nada pelo rdio.
O nico comparsa que est com ele no barraco tenta tranquiliz-lo. Quando passa pela janela no caminho para a cozinha, recebe um balao.
Baiano corre para a laje, em rota de fuga, quando atingido por um tiro e cai ferido. Nascimento coloca o p em cima do peito do traficante, que implora para que no atire no seu rosto, de modo a no estragar o velrio. O capito se irrita, busca uma carabina calibre 12, passa a arma para Matias, que no hesita, destrava-a e atira no rosto do traficante.
O tiro dado de cima para baixo, com o sol ao fundo. Depois de se ouvir o estampido, a tela fica. Anlise do filme - Contexto Antes de enfrentar a tarefa de interpretao de Tropa de Elite, necessrio considerar que essa obra insere-se num ambiente saturado de informaes e imagens miditicas veiculadas por TV, revistas e jornais, que criaram uma viso tendente a demonizar a figura dos pees do narcotrfico, mostrando-os como os grandes responsveis pela violncia urbana e dando a esses indivduos uma dimenso mitolgica.
No se vai discutir aqui a veracidade ou no dessa construo apenas registrar o procedimento: a redundante apresentao de traficantes em cima de lajes em favelas, desafiando as cmeras e, em conseqncia, o olhar do espectador da TV. Acrescente-se que essa mdia tambm contribuiu para a construo de certa imagem do Bope, amplificando e exaltando suas aes. Entende-se que esse tipo de construo miditica tenha, de alguma maneira, infludo na recepo da obra por parte do grande pblico.
Acredita-se que o efeito dessa realidade facilitou a aceitao do discurso do filme, que d voz a um policial capito dessa fora , o qual orienta o percurso do espectador durante a exibio da obra.
Some-se a isso longa experimentao esttica em produtos miditicos de fico, no s em forma de novelas e minissries nacionais, que trataram do tema do narcotrfico, como tambm nos formatos dos filmes de Hollywood, como Traffic e Scarface Outro aspecto que deve ser considerado que, por tratar de um tema candente, vivido na cidade que conhecida por ser uma espcie de ressonncia dos problemas do Brasil, esse filme pode ter-se oferecido para satisfazer a curiosidade estimulada no pblico de desejar olhar numa espcie de voyeurismo esse pedao da realidade, j que a obra penetra nos domnios cercados de mistrio, nos territrios folk-midiatizados das temveis favelas e seus bandidos cruis, vivenciando as entranhas de uma guerra da qual s tinha relatos filtrados pelos meios de comunicao.
Deve ser tambm considerado o fato de o pblico j ter alcanado alguma experincia na espetacularizao do tema, atravs de fragmentos exibidos na TV, como a matria do jornalista Tim Lopes , feita com cmera. Tropa de Elite, pode ser considerado um produto hbrido que contm elementos do documentrio e encadeia a histria como no gnero de filme de ao, com apoio de procedimentos estticos da linguagem do videoclipe.
Essa hibridao de elementos poderia gerar confuso, principalmente o artifcio da simulao de documentrio, articulada com narrao na primeira pessoa, do personagem ficcional dialogando com a cmera do narrador invisvel, que translada para imagens do seu discurso, ao mesmo tempo em que o amplifica, ao agregar elementos que no so de sua fala. Isso induzir a uma leitura que tenderia a aceitar o discurso do narrador como algo real.
Ou seja: o pblico passar a v-lo como um depoimento, ou mesmo docudrama. Em Tropa de Elite, utilizam-se, com certa intensidade, os elementos do real. Dessa forma, o filme cria uma atmosfera sugestiva de que o que dito e mostrado seria como uma expresso objetiva a realidade como ela , quando, na verdade, trata-se de uma construo ficcional bem amarrada, que privilegia determinadas tomadas dessa realidade: uma representao. Entretanto, acredita-se que essa aparente confuso trabalha a favor da fico refora, por esse artifcio, a recepo da frmula do velho esquema do filme de ao, agora modernizado por usar elementos da cultura atual, da linguagem do videoclipe.
Suspeita-se se, nesse artifcio do autor de usar a primeira pessoa de um policial, constri-se um estratagema que implica fazer acreditar que se colocou um problema para pensar. No sero considerados aqui outros documentrios, como Notcias de uma guerra particular e Santa Marta: Duas semanas no morro , porque tiveram exibio restrita, no alcanaram rede nacional de TV. Procura, especialmente, dialogar com o artigo Uma questo de ponto de vista: a recepo de Tropa de Elite na imprensa.
Numa visada mais detida dessa obra, observou-se que, apesar dessa pretensa ambiguidade, no filme existe uma tendncia dominante uma forte direo que guia o espectador, envolvendo-o na trama de tal forma que o impede de refletir.
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